Por Dr. José Antônio Leprevost Neto

As queixas de ordem sexual estão cada vez mais frequentes no consultório do ginecologista, sendo que as mais ouvidas são relacionadas ao desejo sexual. As mulheres falam da diminuição ou da falta da libido, e que seus parceiros reclamam que não são procurados por elas, ficando a iniciativa a cargo do homem. Essa queixa, muito comum em relacionamentos de longa duração, também acontece em relacionamentos recentes ou mesmos sem um parceiro fixo. A ausência de libido não é exclusiva de relacionamentos heterossexuais, ocorrendo também em casais homoafetivos. Isso não quer dizer obrigatoriamente que os problemas sexuais estejam aumentando, mas talvez signifique que a mulher há muito tempo abandonou a atitude passiva de simples aceitação das coisas como sempre lhe foram impostas culturalmente e no seu “empoderamento”, busca se apoderar também do seu corpo e de seu prazer. Por outro lado, o que se vê hoje são os próprios parceiros estimulando a mulher a procurar auxílio para “tratar” a ausência de desejo.

Mas há algo a ser tratado? Falando apenas de relacionamentos heterossexuais tradicionais, as respostas sexuais masculinas e femininas possuem algumas particularidades que as diferenciam, tanto no aspecto biológico, como no aspecto sócio-cultural. A resposta sexual é um processo constituído por uma seqüência conhecida de alterações fisiológicas que independem de qual seja a prática sexual (masturbação, coito, etc.). As diferenças entre homens e mulheres podem até facilitar as coisas para a maioria dos homens, pois biologicamente, as características físicas e hormonais, permitem que os membros do sexo masculino tenham uma reposta mais rápida às fantasias sexuais ou a qualquer estimulação erótica. Assim, um homem pode ter seus impulsos sexuais facilmente saciados. Se as experiências forem bem sucedidas, haverá reforços para comportamentos semelhantes posteriores e, por mecanismo de condicionamento, pode-se estabelecer um padrão, que geralmente vai modular a forma como o indivíduo se comportará com suas parceiras.

Esse padrão de “eficiência masculina”, que é enormemente reforçado pela nossa cultura, por vezes é prejudicial à mulher. Geralmente, a resposta sexual das mulheres é mais complexa que a dos homens. Poder-se-ia dizer que é mais rica e mais sensível. Se o relacionamento com o parceiro estiver a contento, se as condições de resposta estiverem preservadas, isto é, se não houver fatores inibitórios (como certos medicamentos, doenças ou problemas físicos) e a estimulação física for satisfatória, pode ocorrer a excitação sexual. A excitação desperta o desejo, que pode evoluir para a satisfação física e emocional. Essa satisfação feminina pode ser acompanhada de orgasmo (que nem sempre ocorre e nem em todas as relações, mas isto pode ser satisfatório para muitas mulheres).

As pessoas têm condições de resposta sexual variáveis, mais espontânea ou mais receptiva, sendo essa última forma mais comum nas mulheres. A resposta sexual feminina baseia-se mais na intimidade. Então, é natural a mulher “não procurar o parceiro”, colocando-se mais em uma situação de receptividade, e ser tanto mais receptiva quanto mais satisfatória tenha sua vivência sexual com aquele parceiro ou em suas experiências sexuais anteriores. Em relacionamentos de maior duração, em que a hábito da convivência está presente, é preponderante esta resposta chamada de cíclica (em que a intimidade, a privacidade e a estimulação física adequadas, levam à excitação e ao desejo sexual).

As mulheres então nos perguntam se é normal não sentir desejo, e se tem como tratamento. Com já descrito, na rotina do dia-a-dia o desejo sexual feminino espontâneo não é o mais comum, então não há que se falar em normalidade. Aliás, o conceito de “normalidade” não se aplica em sexualidade, desde que não estejamos falando em desvios sexuais (parafilias). O desejo sexual que se desperta, que reage em condições adequadas, não está ausente, apenas não está espontâneo. Como médicos, temos que estimular a mulher a despertar sua sexualidade e aos casais que busquem momentos de intimidade, com comunicação e estimulação física adequados. No homem, a capacidade de obter e manter uma ereção geralmente basta para retroalimentar sua excitação. Na mulher, a excitação depende mais de processos cognitivos (percepção, conhecimento, imaginação, memória) sobre os estímulos recebidos do que propriamente um processo genital.

É verdade que os casais não se mantém apenas movidos pelo sexo, mas os múltiplos apelos aos quais as pessoas são submetidas na sua rotina, e a grande carga de tarefas e necessidades que a sociedade e nós mesmos nos impomos, vão jogando a intimidade do casal para planos cada vez mais inferiores. Isso, associado à nossa estrutura cultural de sobrepor a produção ao prazer, torna os momentos íntimos a dois cada vez mais raros, o que pode afetar a sexualidade de um ou de ambos. A face sexual de um relacionamento pode ser uns dos pilares que o mantém ou que o destrói.